O poema "Consumidor Consciente" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é uma crítica ácida, irônica e profundamente política à superficialidade do capitalismo verde e à mercantilização da saúde mental.


O poema "Consumidor Consciente" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é uma crítica ácida, irônica e profundamente política à superficialidade do capitalismo verde e à mercantilização da saúde mental.

O eu lírico expõe como o sistema econômico atual transforma dores humanas legítimas e causas sociais importantes em meras engrenagens de consumo e campanhas de marketing.

Abaixo, veja uma análise estruturada dos principais temas e recursos do poema:

1. Ironia e o "Capitalismo Verde"

O poema começa contrastando ações ecológicas individuais com uma angústia existencial profunda.
  • O Alvo: Sacolas retornáveis, adesivos e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) são apresentados como distrações superficiais.
  • A Crítica: O texto sugere que focar apenas em hábitos individuais esconde as falhas estruturais de um sistema que continua destruindo o planeta e esgotando os indivíduos.

2. A Coisificação da Saúde Mental (Setembro Amarelo)

A metade do poema foca na campanha de prevenção ao suicídio (Setembro Amarelo), desmistificando o seu propósito mercadológico.
  • A "Máquina": O eu lírico argumenta que a sociedade não quer salvar vidas por empatia, mas para manter os indivíduos produzindo e consumindo.
  • A Superestrutura: Termos como "superestrutura" (uma clara alusão à teoria marxista) e "máquina" mostram o indivíduo sendo "digerido" vivo enquanto tenta se tratar individualmente (fazer terapia, tratar traumas) sem que a raiz do problema social seja tocada.

3. A Mercantilização dos Meses (Calendário Corporativo)

O poema ironiza a profusão de meses coloridos (Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul).
  • O eu lírico aponta que essas campanhas funcionam quase como um calendário de marketing para grandes corporações e planos de saúde.
  • A longevidade não é buscada para que as pessoas vivam bem ("qualidade do tempo"), mas para que vivam mais tempo gerando lucro para acionistas e investidores ("tempo a mais").

4. Conclusão Concreta

O desfecho do poema é o ápice da ironia: o suicídio não é proibido por razões morais ou humanitárias, mas porque "atrapalha a economia". A morte voluntária é vista pelo sistema como um "desperdício de cliente" e uma quebra no fluxo de acumulação de capital.



Para aprofundar a análise, vamos dividir o poema em três camadas críticas: a perspectiva sociológica/filosófica, a estrutura estética (recursos literários) e o conceito de "biopolítica" aplicada ao mercado de bem-estar.



1. A Base Teórica: Karl Marx e a Escola de Frankfurt

O poema utiliza um vocabulário técnico da sociologia crítica para desmascarar a realidade.
  • A Superestrutura e a Infraestrutura: O texto cita explicitamente o termo "superestrutura". Na teoria marxista, a infraestrutura é a base econômica (o capitalismo), e a superestrutura é o conjunto de ideias, leis, moral e cultura que a defendem. O poema mostra que a terapia, o ecologismo de fachada e as campanhas de saúde mental servem para manter a base econômica intacta. O indivíduo se culpa e tenta se consertar sozinho enquanto a estrutura o consome.
  • A Indústria Cultural e a Coisificação (Adorno e Horkheimer): Os autores da Escola de Frankfurt discutiam como o capitalismo transforma tudo em mercadoria, inclusive a rebeldia e a dor. O poema ilustra isso perfeitamente: o sofrimento humano e o desejo de morrer deixam de ser uma crise existencial e viram um problema de "gestão de marca" das corporações.

2. Biopolítica: O Controle do Corpo e do Tempo

O conceito de Biopolítica (desenvolvido por Michel Foucault) explica como o Estado e as instituições controlam os corpos biológicos da população (nascimentos, mortes, saúde). O poema atualiza isso para o Biocapitalismo:
  • Tempo Quantitativo vs. Qualitativo: Os versos "ninguém se importa com a qualidade do tempo, só querem tempo a mais" resumem o bio-poder. Para o mercado, não importa se o trabalhador está deprimido ou exausto, desde que ele continue vivo, consumindo antidepressivos, pagando planos de saúde e gerando lucros para os "acionistas e investidores".
  • O Calendário Comercial da Dor: A fragmentação do ano em cores (Setembro Amarelo, Outubro Rosa, Novembro Azul) é criticada como uma maquiagem mercadológica. O sistema dita até o momento certo de se preocupar com cada patologia, esvaziando o sentido humano dessas lutas e transformando-as em campanhas de engajamento corporativo.

3. Recursos Estéticos e Estilísticos

A força do poema não está apenas no que ele diz, mas em como ele diz:
  • Antítese Cruel: O contraste chocante entre elementos banais da militância ecológica de classe média ("sacola retornável", "adesivos") e a gravidade do suicídio cria um impacto estético violento no leitor.
  • Ironia Macabra (Sarcasmo): O eu lírico adota a voz do próprio sistema capitalista. Ele dá conselhos absurdos como se fossem lógicos: "adie seu suicídio para algum outro mês", "encontre uma forma para se consumir que não afete o mercado". Esse cinismo expõe o absurdo da lógica econômica.
  • Metáforas de Deglutição: O sistema é descrito como um monstro físico. Palavras como "máquina te consuma", "superestrutura digere você" e "forma para se consumir" mostram o capitalismo como um processo canibalístico, onde o ser humano é o alimento.
  • Versos Livres e Ritmo Seco: A ausência de rimas formais e o uso de versos curtos cortam o lirismo tradicional. O texto funciona como um manifesto ou um espelho frio da burocracia corporativa.

Resumo do Aprofundamento

O poema "Consumidor Consciente" demonstra que, no cenário atual, até o ato extremo de desistir da vida foi capturado pela lógica do lucro. O "suicídio" aqui funciona como a metáfora definitiva da perda de controle do indivíduo sobre si mesmo: você não é dono da sua vida, e também não é dono da sua morte; ambas pertencem ao fluxo de caixa do mercado.

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Consumidor Consciente 
Michel F.M.

pegue sua sacola
retornável, seus adesivos
com mensagens ecológicas,
seus panfletos de
conscientização.

empilhe os objetivos 
de desenvolvimento 
sustentável.

agora me ouça,
pacientemente 
com atenção.

eu poderia simplesmente 
acabar com minha vida,
e todo meu sofrimento 
acabaria.

mas assim infelizmente 
eu saberia, que minha dor
acabou, mas a dor do mundo 
segue ilesa.

este é um mês tão bom,
quanto todos os outros 
para se suicidar.

mas decidiram agora,
que em setembro 
ninguém deve tirar 
a própria vida.

então,
deixe que o sistema 
faça isso por você.

deixe que a máquina 
te consuma aos poucos,
enquanto você repensa
seus hábitos.

adote medidas individuais,
faça exames e terapia,
trate seus traumas,
enquanto a superestrutura 
digere você.

adie seu suicídio
para algum outro mês,
tingido de azul ou rosa,
de combate ao câncer 
de mama ou próstata.

encontre uma forma
para se consumir,
que não afete o mercado
e a sociedade de consumo.

afinal, as grandes corporações 
precisam de seus consumidores 
o ano inteiro. 

é o jogo deles, são deles
as regras também,
acionistas, investidores,
movidos a lucro
e rendimentos.

a longevidade é 
uma grande campanha 
de marketing e somos
todos clientes em potencial.

ninguém se importa 
com a qualidade do tempo,
só querem tempo a mais.

a palavra chave é 
acumulação.
então deixe
pra se matar outra hora
e não atrapalhe a economia.

21/09/24
B.M.F. Margoni 

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